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Você não acha que, quanto mais sabemos nos expressar, mais nos tornamos interessantes para os outros e para nós mesmos? Nesse post eu vou mostrar como e porque aprender idiomas pode transformar você em uma pessoa incrível, e o que tudo isso tem a ver com ética.



COMO APRENDER QUALQUER IDIOMA E O VALOR DO INPUT



MÉTODO POLIGLOTA



"Language is not an abstract construction of the learned, or of dictionary-makers, but is something arising out of the work, needs, ties, joys, affections, tastes, of long generations of humanity, and has its bases broad and low, close to the ground." WALT WHITMAN: S. in America, 1885.


As palavras de W. Whitman resumem bem as diferenças entre as abordagens para se aprender um novo idioma: entre a abordagem convencional e a natural (ou método poliglota).


O método natural foca na otimização do input e output, ou seja, otimizar as palavras que entram (input) e que saem (output). E este processo é feito de um modo totalmente natural... sem apego a tempos verbais específicos, cronologias de estudos chapadas etc..


Já o método convencional inverte a situação. Ao invés de pensar o idioma em função do método, pensa o método em função do idioma. Como? Por recortar o idioma em várias etapas e ir estudando bloquinho por bloquinho.


O método natural (Krashen, 1986) é considerado um dos mais rápidos pois deixa com que o seu cérebro e o meu cérebro, seja capaz de decodificar o idioma em si mesmo. Ora... um idioma é cheio de nuances e contradições, e não faz muito sentido tentar mapeá-lo para estudá-lo. Mas sim deixar seu cérebro "acostumar-se" com os novos padrões (T. Harris 2003).


As fotos abaixo mostram como o método poliglota, apesar de parecer confuso funciona, e como o método convencional funciona:




A primeira foto demonstra o método convencional, de separação e segmentação de idiomas e a segunda foto mostra o método natural (que simula o aprendizado em crianças).


Os espaços em vermelhos são as palavras do novo idioma que vamos conhecendo. Os espaços sem cor representam palavras que ainda não conhecemos.


Agora imagine, em qual dos dois métodos o indivíduo conseguiria expressar-se melhor? Caso o aluno do primeiro método não tivesse estudado uma "parte" daquele assunto, jamais conseguiria falar.


Já aquele que usa o método natural, muito usado por poliglotas, falar sobre amplos assuntos é muito mais fácil. Isso pois, embora não possamos conhecer todas as palavras, certamente aquela que conhecemos ao redor delas, são o suficiente para que nós possamos nos comunicar.


Não é minha intenção falar em detalhes sobre o método poliglota neste post. Mas, aqui neste post sobre o método Fluência RPG você pode saber muito sobre isso.






INPUT



"Input is what drives language acquisition" - Joe Barcroft and Wynne Wong.

Segundo a universidade de Cambridge (2013), input refere-se a todas os meios e métodos que um idioma tem para fazer referência às coisas a nossa volta. Um input torna-se compreensível a partir do momento que conseguimos retirar das palavras o seu significado através do contexto ou de nosso conhecimento de mundo.


Esse input divide-se entre escuta e leitura e neste post eu focarei principalmente na leitura. Entretanto, ambos têm um principio fundamental: o input deve ser amplamente interessante e relevante pra você.


É justamente por isso que mais de 80% das pessoas desiste de aprender um idioma novo. O caminho até adquirir a fluência é muito chato... aquelas listinhas de palavras... ninguém merece!



INTERESSANTE-RELEVANTE E A IMPORTÂNCIA DO PROCESSO



Agora, se as informações que você está consumindo são interessantes e relevantes pra você, você acaba se tornando uma pessoa mais e mais motivada para aprender.


Pense num livro que você amou ler (D. Quixote, por exemplo... ou Harry Potter, sem juízos de valor) quando você vai lendo, você nunca deseja que acabe! Já não aconteceu isso com você?


Então... quanto mais você se expõe ao novo idioma de uma forma motivada e engajada, mais padrões de reconhecimento naquela língua você vai formando. E o que são padrões de reconhecimento? Ora! A cor vermelha daquelas duas fotos ali em cima! Isso significa uma coisa: você está começando a ver o mundo com outras cores, a recortar o mundo de uma outra forma!


Aquilo que você chamava de pequeno passa a ser piccolo, e depois little e depois pequeño e depois petit... e por aí vai.


Quando você é capaz de se comunicar neste novo conjunto de símbolos com relativo pouco esforço, parabéns. Você é fluente. Desenvolveu não só uma habilidade, mas expandiu seus horizontes: aprendeu a recortar o mundo à sua volta de um modo totalmente diferente.


E quando você perceber... verá que há coisas que você consegue expressar somente naquela língua! Quando você finalmente percebe isso, as coisas mudaram totalmente pra você.




COMO APRENDER QUALQUER IDIOMA TORNA VOCÊ UMA PESSOA INCRÍVEL



APRENDER IDIOMAS TEM TUDO A VER COM ÉTICA



Agora há um fator que muda tudo: o que você faz no processo de adquirir essa fluência pode mudar tudo. E mudar tudo significa mudar sua vida inteira.


Isso porque para aprender qualquer idioma você deve entender que o processo de aprendizado de idioma tem tudo a ver com ética.


E eu uso a palavra ética aqui no sentido de que ela deve ser entendida como um esforço para se viver melhor. Então, ela não é sinônimo de certo e errado... mas um constante esforço para tornar-se uma pessoa melhor, gerar valor para aqueles e aquelas à sua volta.


Pense só, se a ética fosse algo estático... era só chegarmos lá e pronto. Mas nunca terminam as discussões, e nunca terminam porque sempre podemos ser melhores, fazer e desempenhar melhor nossas atividades, compreender melhor os outros e a vida a nossa volta.


Espero que você tenha entendido que os idiomas são uma parte fundamental de como você recorta o mundo em torno de você. É através do idioma que você diz que está triste, feliz, expressa raiva, expressa ternura, indignação, nomeia pessoas, objetos, pede informações, grita...


É através do idioma que você faz isso. E quando você se dispõe a aprender um novo idioma, ah... ai sim você está abrindo sua experiência de vida para viver de um modo mais alargado.


Você decidiu que tentará recortar o mundo a partir de outros códigos, de outra maneira e então certamente começará a ver as coisas de um modo muito mais complexo.


Mesmo se você tenha decidido aprender um idioma para ganhar mais dinheiro, você aprenderá sobre novas culturas, novos hábitos, novos sofrimentos e novas palavras que expressam tudo isso. E esse universo inteiro estava fechado para você antes, mas agora abre-se perante você com uma ternura imensa que te lança ao cume de outras formas de viver e encarar situações.


Aprender um outro idioma, para mim, é justamente isso. Tentar enxergar as coisas dum outro ponto de vista porque, se julgássemos tudo pelo nossos olhos e sempre pelos nossos valores... seríamos imperadores e imperatrizes de toda a verdade.


Mas não somos sempre bonzinhos. Muitas vezes estamos errados. E você ter um conjunto de modos de vivencia diferentes em você (ou seja, várias línguas que você fala) você começa a ser mais humanidade que humano.


Você passa a ser mais universal que particular.



QUAL O PAPEL DA LITERATURA NESTE PROCESSO?



É exatamente nessa universalidade que os idiomas tocam a pedra angular para tornar-se uma pessoa muito mais incrível: a literatura.


Isso porque embora um livro de literatura seja um livro particular, escrito em seu tempo... carregado em hábitos e de sua cultura, ele é ao mesmo tempo uma lição e uma experiência de vida para todos.

Isso porque um livro de literatura como Don Quixote, por exemplo (aqui sim há juízo de valor) é um conjunto de lições da vida, um conjunto de experiências que estão só esperando você... esperando para que você também possa vivenciá-los.


Ora, não sei você, mas eu não sou um cavaleiro do século XV na Espanha. Mas, ao contrário, aprendi muito sobre sonhos e valores com D. Quixote, sobre como lutamos dias e dias com coisas que mais são moinhos de ventos do que gigantes...


Quando você começa a incorporar esses papéis, os quais a literatura está repleta, você passa a identificar-se com personagens humanos que tiveram experiências diferentes das suas.


É ai então que você começa a alargar sua sensibilidade empática com os sofrimentos, alegrias e dificuldades dos outros. E começa, ao mesmo tempo, a criar uma resistência e uma maior coragem para enfrentar situações que podem vir acontecer com você ? situações similares ou não!


Sim! Você certamente já escutou uma música e lembrou de alguém ou de alguma situação na sua vida. A ideia aqui é a mesma. Quando você começa a identificar dores comuns nestes personagens... sonhos frustrados, traições, alegrias inesperadas etc.... você começa a enriquecer sua percepção para sua própria história, e também para melhor entender os outros.


E é só lendo no original, lendo em outra língua, que tudo isso se conjuga: você começa a recortar o mundo em palavras diferentes, e alargar seu modo de ver o mundo ao mesmo tempo. E é assim que você se torna uma pessoa incrível. Incrivelmente aberta, inteligente e muitíssimo interessante pra você e para os outros.


Quando você finalmente entender que aprender qualquer idioma pode tornar você uma pessoa incrível, e você passar a usar a literatura a seu favor para fazer isso no processo, você será alçado ao cume de outro nível de percepção da sua vida e de sua história. De lá, você verá o atoleiro donde vinha, e nunca terá coragem de descer ali de novo. Irá desejar ir mais e mais alto. E então, parabéns. Você acaba de desenvolver um sonho novo: tornar-se poliglota e aprender qualquer idioma. O caminho deste seu novo sonho tornará você uma pessoa incrível.